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Vencedores têm cicatrizes

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O Encontro Marcado

                       O encontro marcado   Sua primeira paixão na vida era o futebol, a segunda eram os jogos de futebol — tudo parecia girar em torno disso.  Conhecido como “o galinha” da turma, “o garanhão” em verdade, tinha o sexo como terceira paixão.  Era um domingo, dia de clássico, a turma estava reunida e Fernando estranhou que alguém pudesse levar a esposa ao estádio em um jogo como aquele, mas Rosa estava lá, bonita como sempre. Vestia a camisa do time e uma bermuda curtinha, coisa de doido — azar do amigo Miguel, que iria passar raiva, na certa. Jogo tenso, bolas desperdiçadas, gols perdidos; e a equipe deles tomou um gol em um contra-ataque rápido do arquirrival. Imagine!? O zagueiro aceitou uma bola nas costas e sem ter a velocidade necessária para acompanhar o adversário, acabou dando de bandeja. Mas nada estava perdido, o time continuava jogando bem. O jogo seguiu de forma t...

Jornal Nacional

Eu vi o homem chorar, O gado morrer, A terra secar.   O homem chorava, O gado morria, A terra ardia.   O político tecia, O atleta a correr, A pátria a olhar.   O homem orava, O gado diminuía, A terra água pedia.   O homem a lamentar O gado a apodrecer A terra a fenecer   O repórter questionava O partido desviava A família reduzia   O homem os olhos erguia O gado carcará comia A terra deserto tornava   Viver sem sorte A beira da morte É sina no norte   O homem a Deus obedecia O gado já não existia A terra petrificava   O jornal mostrava Ninguém ligava O ciclo seguia.

SOMENTE MAIS UMA HISTÓRIA

     Era tarde naquele dia e chovia torrencialmente. Quem imaginaria que uma chuva daquelas iria cair em pleno carnaval? Coisas de São Pedro e do pessoal lá de cima. Deviam ser contra o povo se divertir por tantos dias seguidos. Era um povo sofrido, que só tinha uma semana como aquela no ano e tudo, afinal, terminava na quarta-feira.       Nilzinha era menina ali da região e havia saído para a capital logo que completou quinze anos, sua madrinha havia cumprido a promessa de leva-la para estudar na cidade grande. Ela poderia estudar para ser professora e depois voltar para trabalhar na escola da roça, ajudando sua velha mãe que deu o duro para cuidar dela e dos quatro irmãos sozinha. Isso ela havia prometido para a mainha, desde muito pequenina, logo que o pai, aquele traste, havia ido embora, abandonando a família em meio à seca. Dos quatro irmãos com quem cresceu, Tonico era falecido – menino bom era aquele – a vida parece que não gosta...

Palavra por palavra

   Alguém, em algum momento de minha vida, disse-me que a alma do poeta deve ser leve como uma pluma ou asas de borboleta. Eu não quis responder, entrar em celeuma, despertar discussão que não pretendia alimentar. Mas um pouco da verdade é que a alma do poeta é dura, pesada, sofrida e é por isso que ele segue a vida a se sacudir, espalhado palavras e poemas como o cão que tenta se livrar das pulgas que o incomodam, o poeta tenta aliviar o peso de sua alma dessa forma. Não é fácil carregar as dores do mundo em uma vida tão curta. Imagine passar pela juventude sendo um tolo e, quando começar a entender das coisas da vida, se deparar com a razão que o lembra que tudo está chegando ao fim. Não sei por que o poeta é torturado por assombrações dessa estirpe. Certamente, aqueles que descem a serra têm uma melhor experiência do que os que tiveram a viagem interrompida no caminho. Vou me concentrar em contar o que aconteceu naquela data. Nós nos encontrávamos sempre, eu procurava ...